Global CO2 emissions stabilize, but peak is far away

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O Estado de S. Paulo, Paris

As emissões globais de gases de efeito estufa devem apresentar uma leve redução neste ano, depois de terem apresentado um pequeno aumento no ano anterior. Com esse comportamento, é a primeira vez que as emissões ficaram estáveis mesmo com a economia mundial retomando o crescimento.

Esta é a boa notícia de um estudo publicado nesta segunda-feira, 7, estimando quanto de gases como CO2 e metano estão sendo jogados na atmosfera. A má notícia é que, apesar de terem parado de crescer neste período, isso não significa que o mundo já atingiu o pico de emissão, o que joga mais pressão por um bom resultado na 21ª Conferência do Clima da ONU, que acontece em Paris, onde o trabalho foi divulgado.

Em 2014, as emissões globais provenientes da queima de combustíveis fósseis e da atividade industrial cresceram 0,6%. As projeções para 2015 são de algo entre queda de 1,6% a alta de 0,5%. Isso marca uma interrupção no rápido crescimento registrado até então - no período de 2004 a 2013, houve um aumento anual de 2,4%.

No total, as emissões de combustíveis fósseis e indústria foram 35,9 gigatoneladas de CO2 em 2014 e devem ser de 35,7 gigatoneladas em 2015.

A análise de pesquisadores da Universidade East Anglia e do projeto Global Carbon Budget é de que a estabilização ocorreu principalmente por conta de uma queda do consumo de carvão na China e aumento da presença de fontes renováveis na matriz energética. Mas eles alertam que isso não significa que globalmente o mundo começará a apresentar queda em suas emissões.

Depois de as emissões chinesas crescerem, ao longo de uma década, 6,7% por ano, em 2014 o aumento foi de 1,2% e a expectativa é de decréscimo para 2015. Isso ocorreu, em parte, por conta do maciço investimento em eólica. Hoje a China é o maior produtor de energia dessa fonte, com capacidade instalada de 23 gigawatts. O país, no entanto, ainda é o líder de emissões, tendo jogado na atmosfera, em 2014, 9,7 bilhões de toneladas de CO2 - 27% do total. E ainda prevê que pode crescer na próxima década. 

“Foram dois anos de emissões atípicas e isso faz parecer que a trajetória de emissões globais pode ter mudado temporariamente. Mas é improvável que as emissões atingiram um pico para valer. Isso porque a necessidade energética para o crescimento da economia ainda depende primariamente do carvão e a redução das emissões em alguns países industriais ainda é modesta”, afirmou Corinne Le Quéré, de East Anglia, em entrevista coletiva em Paris. Ela é a principal autora do trabalho publicado nesta segunda na revista Nature Climate Change.

Robert Jackson, da Universidade Stanford, que assina um artigo de comentário publicado também nesta segunda na revista, complementou que essa redução da China tem muito a ver com políticas voltadas para reduzir a poluição do ar no país. Apesar de o CO2 não ser um poluente no sentido mais comum da palavra - o problema é ele se acumular na atmosfera e intensificar o efeito estufa -, a queima de carvão leva a emissão de outras substâncias que fazem mal à saúde, como material particulado.

Índia. Os pesquisadores alertaram que, se esse movimento da China se intensificar, a Índia passa a ser a bola da vez para o clima. No ano passado, o país foi o quarto maior emissor do mundo (atrás de China, Estados Unidos e União Europeia), mas, ao contrário dos outros três, com tendência de alta. Há ainda o agravante de que a Índia é o que tem menor emissão per capita na comparação com os demais: 2 toneladas de CO2 por habitante por ano. Nos Estados Unidos são 17,4; na China, 7,1 e na União Europeia, 6,8. O que significa que, para crescer economicamente e diminuir desigualdades, essa parcela vai crescer e, com ela, o montante total.

De acordo com o relatório, o aumento observado na Índia no ano passado, de 205 milhões de toneladas de CO2 (chegando a 2,6 bilhões de toneladas), supera o que a União Europeia inteira teve de redução no período: 210 milhões de toneladas.

As emissões totais da Índia são hoje equivalentes às apresentadas pela China em 1990. “E ninguém imaginava, há 25 anos, como estaria a China hoje, então não conseguimos imaginar o que pode acontecer com a Índia”, afirmou Jackson.

Para os pesquisadores, nesse ritmo, talvez o pico global só ocorra em 2040, o que põe em risco a expectativa de países mais vulneráveis de que se conseguisse estabilizar o aumento da temperatura a 1,5°C. 

“Nesse ritmo de emissões globais, vamos alcançar o orçamento de carbono (limite de emissões que o mundo tem para ficar em 2°C) já em 2020. Tem de reduzir e zerar em 2025, 2030, para estabilizar. Mas pelo caminho que estamos trilhando, pelas contribuições nacionais dos países, pessoalmente acho que 1,5°C é muito, muito difícil”, disse Glen Peters, do Centro Internacional para Pesquisa de Clima e Ambiente da Noruega.

Florestas. O estudo não considerou, para este ano, as emissões do setor florestal - a chamada mudanças no uso da terra, hoje ainda a maior fonte de emissões do Brasil e de outros países florestados, como a Indonésia. Em 2014, o levantamento tinha mostrado que o setor foi responsável por 4 gigatoneladas de CO2. 

Corinne afirmou que, levando isso em conta, pode ser que as emissões globais não tenham caído neste ano, visto que a Indonésia teve uma grande perda de vegetação por causa de incêndios. A pesquisadora atribuiu esse aumento do fogo ao forte El Niño deste ano e disse que não deve ser uma mudança no padrão. Ela não calculou também o aumento de 16% do desmatamento na Amazônia brasileira entre agosto do ano passado e julho deste ano.