"Groundhog Day" for journalists covering COP21

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O Estado de S. Paulo, Paris

The main points in discussion are pretty much the same since 1992 and sometimes a journalist can have the impression that is writing over and over again the same story.
 
Cobrir conferências do clima é uma atividade que parece, às vezes, entrar num looping sem fim. Ou num eterno Dia da Marmota, como dizem jornalistas já na faixa dos seus 40 anos lembrando o clássico filme de Bill Murray. Os discursos, os entraves, o toma-la-da-cá são praticamente os mesmos desde que as negociações climáticas começaram, em 1992. Na base, o problema se mantém em torno de dois tópicos há 23 anos: diferenciação e finanças, colocando em lados opostos países desenvolvidos e em desenvolvimento.

O mundo pode ter mudado a ponto de não justificar mais essa dicotomia, como gostam de argumentar os países ricos, mas, na prática, ela segue assombrando as tentativas de se chegar a um acordo global que permita ao mundo conter o aquecimento global.

Nesta terça (8), já no fim do dia em Paris, o presidente da 21ª Conferência do Clima, o chanceler francês, Laurent Fabius, disse que pretende apresentar um novo texto aos negociadores, nesta quarta, na hora do almoço, já incorporando os conselhos que uma equipe de facilitadores, incluindo a ministra do Meio Ambiente do Brasil, Izabella Teixeira, deve oferecer para resolver atritos.

Esse time foi escalado no sábado quando se viu que a primeira semana de negociações pouco tinha avançado para destravar pontos mais polêmicos. Izabella, por exemplo, ficou, junto com o ministro das Relações Exteriores de Cingapura, Vivian Balakrishnan, responsável por facilitar as negociações no grupo de trabalho sobre diferenciação.
 
E nesta terça à noite, quando foram reportar avanços para Fabius, Balakrishnan disse que ainda não tinha conseguido chegar a nenhum consenso em temas como diferenciação em mitigação, financiamento e transparência. “Honestamente, os países ainda não estão prontos para colocar suas posições”, disse.

Mais cedo, o Basic, grupo que reúne Brasil, África do Sul, Índia e China concedeu uma coletiva de imprensa e divulgou uma declaração conjunta afirmando várias vezes que os países negociam com “espírito de flexibilização”. Mas não disseram exatamente em quais pontos eles estão mais flexíveis.

Um dos pontos de maior nó é sobre quem vai por dinheiro na mesa. Pela Convenção do Clima, são os países que faziam parte da OCDE em 1992. Em 2009 eles se comprometeram a alcançar, em 2020, um financiamento da ordem de US$ 100 bilhões, que depois deveria continuar sendo aportado anualmente.

Em Paris, está em jogo quanto será esse número pós-2020, e países como Estados Unidos e da União Europeia já disseram que gostariam de ver a base de doadores ampliada para todos que estiverem em posição de colaborar. Para os países em desenvolvimento, a palavra de ordem para essa demanda é simples: nem vem que não tem.

Mas pela coletiva do Basic e por outras declarações feitas ao longo dos últimos nove dias, percebe-se que eles devem topar algo mais suave. Que entre no texto alguma menção a dinheiro proveniente de países em desenvolvimento, mas desde que seja voluntária, numa base sul-sul, e, acima de tudo, que não entre na conta dos países ricos. A ideia não é diminuir o quanto os desenvolvidos têm de por na mesa, mas ainda assim mostrar algum tipo de colaboração. Essa seria a concessão para que, por parte dos ricos, se definisse qual será esse valor mágico para o pós-2020.

Cálculos feitos pelo Banco Mundial são de que para os países em desenvolvimento cumprirem suas metas de redução das emissões, seriam necessários trilhões de dólares. US$ 100 bi por ano não é lá muita coisa. Mas essa está sendo a maior dificuldade em Paris.

"As mudanças climáticas não vão acabar em 2020. Logo necessitamos de financiamento pós-2020. É o grande tema”, definiu Edna Bomo Molewa, ministra do Meio Ambiente da África do Sul. E Fabius ainda insiste que vai fechar o acordo até as 18h de sexta-feira.