The next climate leader

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Época, Marrakech, Morocco

Abstract: The US elected a climate denier as president. Who will fill the gap in climate leadership? Are China or the EU up to the task?

Original story was published in ÉPOCA news weekly magazine, issue nº 962

Quem substituirá a liderança dos americanos no clima?

Os Estados Unidos elegeram um presidente que nega o aquecimento global. Quem ocupará o lugar dos americanos no cenário internacional?

Ironicamente, o momento mais importante da conferência internacional do clima, a COP em Marrakech, foi um anticlímax. O encontro reúne representantes de quase 200 países, além de empresários e ambientalistas para debater os próximos passos do Acordo de Paris, que prevê esforços para combater o aquecimento global. Na quinta-feira, dia 16, às 13 horas, horário local, uma das salas de imprensa do centro de eventos onde ocorria o encontro recebeu John Kerry, o secretário de estado americano. Pelos corredores da conferência, as pessoas se juntavam em grupinhos para acompanhar o discurso de Kerry pela TV, como se vissem o último capítulo – triste – de uma novela. Com um tom de voz envolvente e pessoal, Kerry falou que as mudanças climáticas são um assunto pessoal para ele. Lembrou de como foi à Groenlândia e viu o gelo desmanchando. Disse que o investimento americano em energias limpas nunca foi tão alto. Foi interrompido várias vezes por aplausos. Afirmou que o clima não é uma questão partidária. Encerrou sob aplausos vigorosos. Mas poucos ali se iludiam.

O democrata Kerry, engajado na luta contra as mudanças climáticas, representa os Estados Unidos que perderam com a vitória de Donald Trump. Sua visão alinhada com o conhecimento científico sobre as ameaças do aquecimento global foi derrotada pelo discurso de Trump, que rejeita tudo isso. “Eu sei que estou pregando para convertidos”, disse John Kerry. “Mas a comunidade global está mais unida do que nunca”, afirmou, ovacionado. Kerry estava mesmo pregando para os convertidos dentro da COP. Em poucas semanas, serão os “não convertidos” que estarão no topo do governo americano, o que coloca um grande ponto de interrogação nas políticas para o clima em todo o mundo.

Nos últimos oito anos, os Estados Unidos se tornaram a maior liderança global na luta contra as mudanças climáticas. Os americanos desempenharam um papel-chave na diplomacia mundial, colocaram a China na mesa de negociações e foram decisivos na formulação do Acordo de Paris. Desde então, o Acordo já foi ratificado por 110 dos 197 países, entrando em vigor oficialmente no começo deste mês. Seu objetivo é fazer os países reduzir emissões de gases que absorvem calor, como o CO2 emitido por carros, indústrias e queimadas, para assim impedir que a atmosfera aqueça demais.

Ninguém imaginava que, um ano depois, essa história de sucesso entraria numa fase de incerteza. Quando era apenas um empresário excêntrico, Trump assinou cartas pedindo ações pelo clima. Mas, desde que entrou em campanha, virou negacionista da ciência, alinhando-se a uma ala republicana ligada a empresas de energia fóssil. Em diversas ocasiões, chamou o problema das mudanças do clima de “farsa”. Prometeu tirar os Estados Unidos do Acordo de Paris. Sua vitória assombrou os corredores da conferência do clima. Uma hipotética saída dos americanos da mesa poderia acabar com o Acordo? A especulação não é
absurda. Já aconteceu no passado. Em 1997, esses mesmos países assinaram em Kyoto, no Japão, um documento para reduzir emissões. Tão logo os democratas saíram do poder, o presidente George W. Bush desistiu do Protocolo de Kyoto.

A equipe de transição do futuro governo Trump ainda não falou abertamente sobre como se comportará na questão ambiental. É possível que ela tente seguir o caminho da saída do Acordo – o que levará tempo e causará atrito com a comunidade internacional. O esforço das delegações dos demais países em Marrakech será para tentar manter a futura administração americana cooperando. “Esperamos que o presidente eleito não tire os Estados Unidos do Acordo de Paris”, disse a ÉPOCA Alden Meyer, diretor da Union of Concerned Scientists, uma organização de lobby científico. “Mas está claro que uma administração Trump não assumirá a liderança internacional na questão climática.”

Quem assumirá esse papel? Todos os olhares se voltam para a China. Os chineses têm papel de destaque nas negociações do clima por causa do peso de sua economia – e porque a China é o maior emissor do mundo. Em Marrakech, sua delegação tentou demonstrar força. “A China continuará defendendo o Acordo de Paris, independentemente dos Estados Unidos”, disse Zhenmin Liu, secretário do Ministério de Relações Exteriores da China. Mas Liu logo adicionou que espera também o comprometimento dos americanos e dos países ricos. A China não quer entrar no barco sozinha.

A capacidade de liderança dos chineses nas conferências da ONU é limitada. Eles estão interessados no assunto por questões quase exclusivamente internas. A mais urgente delas é o “ar-pocalipse”, a péssima qualidade do ar das grandes metrópoles chinesas. Reduzir emissões de usinas a carvão, por exemplo, significa também melhorar o ar que a população respira – e diminuir a insatisfação popular, uma questão que o regime autoritário chinês leva muito a sério. O governo central assumiu a questão como prioridade e colocou em prática ações em tempo recorde. Só nos últimos 12 meses, a China criou sistemas de monitoramento de poluição do ar em 300 cidades. O investimento em energias renováveis ultrapassou a marca de US$ 100 bilhões em 2015, mais do que os investimentos da Europa e dos Estados Unidos somados. E o uso do carvão como fonte de energia caiu pelo terceiro ano consecutivo. “A China tem muito trabalho a fazer, por isso não podemos elogiar muito. Mas é preciso reconhecer o progresso recente”, disse a ÉPOCA Yan Li, vice-diretora para políticas ambientais do Greenpeace-China.

A força da economia chinesa e o muito que foi feito em tão pouco tempo fazem com que os demais países pressionem a China para assumir um papel de destaque. Mas isso não acontecerá. Ainda faltam aos chineses o traquejo diplomático e o interesse no processo multilateral. Yan acredita que a China pode liderar ao lado de demais países, em um grupo ou coalizão. Mas não está disposta a fazer isso sozinha.

Outro ator que tem sido chamado ao papel de liderança é o bloco europeu. A Europa tem traquejo diplomático, iniciativa, recursos e expertise no combate às mudanças climáticas. A Alemanha é um dos países que podem despontar como grande líder. Em Marrakech, ela se adiantou e apresentou planos para 2050. As propostas impressionam. Os alemães prometem desligar dois terços de todas as suas usinas a carvão, estimando uma redução de emissões de gases poluentes que pode chegar a 95%. Além disso, o plano prevê um fundo para substituir os empregos perdidos na indústria do carvão por novos postos de trabalho com energias limpas. Mas, mesmo com toda essa influência, os europeus mostraram cautela durante a conferência. A intenção inicial deles é não excluir, previamente, uma possível administração Trump das negociações. “Não queremos especular sobre as ações da futura administração”, diz Miguel Arias Cañete, chefe da Comissão Europeia. “Nós não temos um plano B no caso de os Estados Unidos saírem do Acordo, e na verdade esperamos que o novo governo honre com seus compromissos.”

O que compromete as ambições europeias são as contradições dentro do próprio bloco europeu. Na questão climática, o principal entrave é o carvão da Polônia. O país ainda não tem uma boa alternativa energética ao carvão. Mas problemas globais, como a imigração e o terrorismo, também tiram o protagonismo dos europeus. Divisões internas, como a causada pela votação do Brexit no Reino Unido, tornam a coesão necessária para a diplomacia do bloco ainda mais complicada. Nesse contexto, o mais provável é que nem Europa nem China preencham o buraco deixado pelos Estados Unidos. Em vez disso, o papel de liderança ficará diluído. “O governo americano foi fundamental no Acordo de Paris, mas não é insubstituível”, diz Ana Toni, do Instituto Clima e Sociedade.

Essa é a estratégia dos últimos momentos dos diplomatas de Obama: buscar novas vozes, especialmente no setor privado. Essa foi a mensagem final que Kerry deixou em seu discurso emocionado. “Estou confiante no futuro, não por causa da política, mas por causa do mercado”, disse. Kerry praticamente implorou aos empresários que assumam essa posição, não por causa do clima, mas porque energia limpa e renovável dá lucro.