Os discursos mais esperados da Conferência Rio+20 _ os derradeiros _ foram tão desmotivantes que nem os próprios debatedores tiveram ânimo para assistí-los. Durante a reunião final entre os chefes de Estado, por volta das 20h de sexta-feira, um representante asiático cochilou enquanto seu colega falava sobre o nosso futuro comum. O assunto estava tão bom que deu até sono.
Após o término da sonolenta conversa, com o documento em mãos, as discussões travadas na Rio+20 saem do nível de quem decide para o nível de quem executa. E aí é que se saberá, enfim, se a conferência foi efetiva ou não.
De maneira geral, as expectativas são baixas. Não é o pessimismo que permite essa afirmação, mas a recuperação histórica dos fatos. Há vinte anos, o término da Eco92 levou a sociedade a criticar, da mesma maneira que hoje, as decisões tomadas por seus líderes. Manchetes e coberturas jornalisticas da época permitem comparar isso.
A época era outra. Não estive lá, mas imagino que não havia telões em lcd, aplicativos para celular com a programação da conferência, nem o acesso tecnológico que permitisse a participação ativa da sociedade.
Falo aí de um aspecto onde o evento triunfou. Nestes quase dez dias em que ocorreu, a Rio+20 fez eco nos quatro cantos do planeta. A presença de mais dois mil jornalistas nas inúmeras salas de imprensa do evento assegura, que pelo viés positivo ou negativo, as pessoas ao redor do mundo falaram ou ouviram falar sobre a sustentabilidade. Já é um avanço.
Sobre fracasso ou sucesso, depende muito de quem está vendo. Os interesses envolvidos sao muitos e passam pelo crivo de setores mais diversos – da educação à agricultura, da arquitetura aos negócios, da mobilização social e ao marketing verde. Envolve poder de decisão, de ação. Mas também envolve sensibilidade e reflexão.
É um assunto que toca a todos, e envolve diretamente a democracia, mas faltou pulso firme e um pouco mais de imposição para que se chegasse a melhores conclusões.
Quando ao final já não se esperava mais nada, Dilma anunciou em tom solene que esse foi um passo histórico para a humanidade. Falando em construção coletiva e equilibrio respeitoso, Dilma terminou o evento de bem com o mundo, e de mal com a população que esperava dela mais.
Metas mais ousadas não foram vistas na Rio+20 porque nesta conferência viveu-se a apoteose da diplomacia. O Brasil, como um país do Hemisfério sul em plena ascendência econômica, teve papel decisivo para que os blocos principais, desenvolvidos e nações em desenvolvimento, chegassem a consensos equilibrados.
Teve liderança para firmar a erradicação da pobreza como meta do desenvolvimento sustentável,
colocar o Brasil em quinto no novo índice de medição do desenvolvimento, além de destinar US$ 6 milhões para o PNUMA e US$ 10 milhões para as mudanças climáticas.
O Brasil não ajudou o mundo a despertar de um sono profundo. Mas por estes dias da conferência, permitiu que muitos colocassem seus sonhos na mesa.
Sono profundo e a vitória da diplomacia
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