Regardless of a country's size, we're all responsible for climate change, says former Chilean leader

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GZH, San Francisco

Past president of Chile Ricardo Lagos has taken a leading role in addressing climate change in the years since he left office in 2006. He served as a United Nations special envoy on climate change between 2007 and 2010 and has made that topic one of his main concerns as a member of The Elders, an international grouping of elder statesmen, peace activists and human rights advocates founded by Kofi Annan and Nelson Mandela. 
 
 
Ricardo Lagos, environmental activists and former president of Chile, speakers to reporters at a global cliamte summit in San Fransisco in September / Credit: Barbara Ries for The Elders
In this interview, conducted during the Global Climate Action Summit in San Francisco, California, in September, Lagos reflects on the Paris Agreement, a compact among nearly 200 countries aimed at keeping global temperature rise this century well below 2 degrees Celsius above pre-industrial levels. He talks specifically about the agreement's application in Latin America and the controversial moment last year when United States President Donald Trump declared his intention to withdrawal the US from the accord.
 
This story was supported by the 2018 Climate Change Media Partnership, a collaboration between Internews’  Earth Journalism Network and the Stanley Foundation. The full interivew in Portuguese appears below.
 
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Presidente do Chile de 2000 a 2006, Ricardo Lagos se tornou um líder de referência quando o assunto é clima. Enviado especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre mudanças climáticas entre 2007 e 2010, Lagos tem essa como uma de suas principais bandeiras no grupo The Elders (termo em inglês que significa "idosos", mas também "sábios"), de que faz parte há dois anos, e que foi cofundado por Kofi Annan e Nelson Mandela. Nesta entrevista, concedida durante a Cúpula Global de Ação Climática (GCAS, na sigla em inglês), realizada em San Francisco, nos Estados Unidos ele falou sobre o Acordo de Paris, que previa limitar o aquecimento global a 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais, sua aplicação na América Latina e a polêmica saída dos EUA, determinada no ano passado por Donald Trump.

Os países em desenvolvimento não têm demonstrado muito comprometimento no combate às mudanças climáticas. Em meio a tantos outros problemas nesses países, como chamar atenção para essa questão?
Em primeiro lugar, gostaria de dizer que nós, latino-americanos, precisamos estar em comum acordo. Desde o Protocolo de Kyoto (assinado em 1997), em que foi feita uma distinção entre países desenvolvidos e não desenvolvidos, entendemos que podemos fazer o que quisermos, porque nada é compulsório. A maior mudança, com o Acordo de Paris (de 2015), foi que cada país tornou-se voluntário. Mas, agora que foi feito, o acordo precisa ser cumprido. O problema: ainda que todos cumprissem suas promessas, ainda estaríamos muito longe do total (ideal de emissões de poluentes) por pessoa e por dia. O grande problema, sobre o qual o Secretário-Geral (das Nações Unidas) António Guterres tem falado, é que o Acordo de Paris é muito importante, mas os compromissos voluntários são insuficientes. Precisamos de uma nova rodada de negociações, que será realizada em dezembro, na Polônia (na 24ª Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP24). E veremos o que acontece. Em segundo lugar, está o fato de que os EUA não fazem mais parte do Acordo, e isso torna as coisas muito mais difíceis. Ainda assim, parece-me que, dada a situação no mundo atual, ou você tem países continentais, e eles têm que fazer valer sua influência – e o primeiro desses países, claro, foi os EUA, depois vem a China, e daqui a 10 anos será a Índia –, ou você é como a União Europeia do passado, uma grande região com uma só voz, e aí ninguém vai ouvir você. Nós, na América Latina, penso eu, temos grandes áreas em que deveríamos estar em comum acordo: mudanças climáticas, imigração e drogas. No mundo de hoje, essas três questões não são mais de políticas domésticas. Assim, acho que, sobre esses três problemas, nós, na América Latina, deveríamos ter uma única voz. E acho que isso é possível. O caso do Brasil é bem especial. O país poderia ter um papel de liderança na área de mudanças climáticas, e essa contribuição seria muito importante.

O senhor acredita que haja um compromisso sério por parte dos países latino-americanos para chegar aos objetivos com os quais nos comprometemos em relação às mudanças climáticas?
Parece-me que, não importa quão grande ou pequeno é um país, todos somos responsáveis. As emissões (de poluentes)per capita têm um papel importante. Em muitas partes do mundo, já é possível comprar uma passagem aérea e saber, além de quanto custou, também o quanto você vai emitir em termos de poluentes, permitindo a cada um, assim, reduzir ou mesmo neutralizar sua participação nisso. Em muitos países, hoje, você já vê um produto ter o preço e, ao lado, as emissões de carbono para produzi-lo. No meu caso, venho do Chile, que é o principal produtor de cobre do mundo, e temos as maiores reservas conhecidas do mineral, mas o cobre ainda é uma mercadoria. Mesmo assim, muitas das pessoas que compram cobre estão pedindo para receber a "pegada" das emissões de carbono por tonelada de cobre. Estamos no meio de uma grande mudança na maneira como entendemos como serão as coisas neste século.

O senhor vê o Chile liderando o combate ao aquecimento global na América Latina?
Acredito que a especificidade da América Latina é que a maior parte das nossas emissões, em conjunto, têm a ver com o desmatamento. Apenas dois países diminuem suas emissões por reflorestamento: Chile e Argentina. E agora também o Uruguai está começando a seguir esse caminho. Nos outros, o desmatamento é muito grande. Então poderíamos ter, com mais reflorestamento e menos desmatatamento, um avanço rápido. Poderíamos ter um lugar de destaque entre as regiões do mundo, se diminuíssemos mais rapidamente as emissões. Esse é um elemento que poderia nos dar uma imagem melhor diante do restante do mundo. Um segundo ponto é que o Chile, com uma modesta modificação administrativa, entrou em condições de reduzir o preço da energia solar. Esse, creio eu, é um bom exemplo para os outros países latino-americanos. Mudamos a maneira como faríamos o leilão da energia para os próximos anos. Normalmente o governo diria: "Preciso de X megas de energia para o ano de 2020 e de Y para 2021". O que mudamos: "Preciso de X tons e Y megas para 2020, das 8h às 18h, e de Z das 18h às 8h". É simples. Uma decisão administrativa. O preço da energia solar é mais barato das 8h às 18h e bateu todas as outras propostas – de gás, hidrelétricas etc. E, claro, temos outras formas de energia das 18h às 8h. Por que digo isso? Porque penso que isso permitiu ao Chile, agora, conseguir cumprir com sua contribuição voluntária para o Acordo de Paris. Precisaríamos ter, até 2025, 20% de energias renováveis. Teremos isso muito antes do prazo.

Estamos dando pouca atenção às mudanças climáticas? Se sim, o senhor crê conseguiremos atingir os objetivos definidos no Acordo de Paris?
O grande problema será que tipo de negociações vamos iniciar na Polônia. Até agora, temos contribuições voluntárias. E estamos longe dos objetivos, então é preciso introduzir elementos de mudança nessas novas negociações. Mas vamos ter novamente algo como o Protocolo de Kyoto? Ou vamos ter mais opções de financiamento, de transferência tecnológica, de mitigação? Em vez de propor uma multa quando um país corta uma árvore, que tal receber um prêmio quando não se corta uma árvore? Essa não é uma decisão pequena. Se incluir o pensamento de que "não vou cortar uma árvore, então quero um pagamento por isso", podemos avançar. O grande avanço de Copenhague 2009 (na COP15, realizada na Dinamarca) foi quando o presidente Barack Obama disse: "Vou pagar quando você plantar uma árvore". Esse foi o estímulo. O próximo passo seria: "Você vai pagar se eu não cortar uma árvore?". E essa pode ser uma forma alternativa de incluir novas áreas de negociação.

Que ações podem ser adotadas em relação à emissão de poluentes no transporte público em cidades latino-americanas?
Há um bonito exemplo nessa área: lembro de que participava do conselho das iniciativas de Felipe Calderón (presidente do México de 2006 a 2012, liderou uma conferência climática da ONU em Cancún em 2010) sobre economia e mudanças climáticas, e a ideia era comparar duas cidades, Atlanta (EUA) e Barcelona (Espanha). Ambas têm bastante em comum, como a mesma renda per capita. Mas, do ponto de vista do transporte, havia sete vezes mais emissões em Atlanta do que em Barcelona. Sete vezes mais! Se pensarmos em uma cidade em 2030 – e até lá será preciso investimento, porque haverá muita urbanização, especialmente na Ásia – o que seria melhor: seguir o modelo de Atlanta ou de Barcelona? Claro que a densidade populacional é muito diferente nesses dois lugares, mas o que estou tentando dizer é: olha, depende. Acho que é útil seguir a ideia de Barcelona, porque, se teremos cidades enormes, e será preciso investir porque a urbanização só vai aumentar, é útil saber que ideia temos em mente. E não necessariamente teremos a mesma emissão do passado. Tenho certeza de que, em Atlanta, todos os dias, há carros sendo dirigidos por muitos quilômetros com apenas uma pessoa, enquanto em Barcelona há um bom transporte público etc. Que modelo queremos seguir? Não há dúvida de que há um bom número de áreas diferentes em que poderíamos reduzir as emissões, não por causa do modelo que se vai seguir, mas também pela tecnologia que teremos. Meus amigos na Índia costumavam dizer: "Tenho direito a emitir tanto quanto os EUA". Só que assim a atmosfera continua como está. Quando discuto com eles, digo: "Olha, agora vocês estão usando este tipo de lâmpada etc." O limite tem de ser diferente, do ponto de vista da população, da cultura. Mas cada país deve levar em consideração que não tem o direito a emitir tanto quanto já foi emitiu antes. É preciso mudar isso.

* O repórter viajou a San Francisco como integrante do Climate Change Media Partnership 2018, uma colaboração entre a Earth Journalism Network e a Stanley Foundation.