Brazil's environment minister has no history in the cause, says Climate Observatory head

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Zero Hora, Katowice, Poland

A veteran of the United Nations' climate conferences who for more than a decade has dedicated effort to climate change discussions, the Brazilian Climate Observatory's Executive Secretary, Carlos Rittl, did not receive well the news that Ricardo Salles would be the country's next environment minister. Fined for altering an environmental management plan to benefit businesses, Salles was the last minister appointed by new President Jair Bolsonaro.

Carlos Rittl: "The environment was heavily harmed during Brazil's elections" / Credit: Guilherme Justino for Agência RBS

Environmental organizations such as Greenpeace and the WWF have also expressed discontent with Salles appointment. In this interview, done in Katowice, Poland, during December's COP24, Rittl expresses his concerns about Salles and also says the environmental agenda should be seen as more than just a climate issue; it is also an economic matter.

This story was supported by the 2018 Climate Change Media Partnership, a collaboration between Internews’ Earth Journalism Network and the Stanley Foundation. The full interview in Portuguese appears below.
 
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Veterano em conferências do clima das Nações Unidas e há mais de uma década dedicando esforços especialmente ao tema das mudanças climáticas, o secretário-executivo do Observatório do Clima — rede brasileira de articulação em torno das mudanças climáticas globais —, Carlos Rittl, recebeu com pessimismo, na 24ª edição do evento, que está sendo realizada na Polônia, o nome do futuro ministro do Meio Ambiente

Depois que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, anunciou que Ricardo Salles, ex-secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, seria o titular da pasta, Rittl expressou preocupação. O representante do observatório se uniu a outras organizações da sociedade civil, como Greepeace e WWF, ao demonstrar receio sobre como o tema será tratado nos próximos anos.

Confira, a seguir, trechos da entrevista com Carlos Rittl, feita diretamente de Katowice, onde a Organização das Nações Unidas (ONU) sedia, até esta sexta-feira (14), a COP24.

Chamou atenção o anúncio de Ricardo Salles como ministro do Meio Ambiente?
O ministro do Meio Ambiente é o último (a ser nomeado). De um ministério que está sendo destituído de poderes, papéis, responsabilidades — muito provavelmente pessoas e orçamento (também). Então, essa é a primeira preocupação. O próprio ministério em si, a sua existência ou não, vai ser subserviente a outras agendas. Quem estava definindo a sua estrutura eram pessoas como, por exemplo, a futura ministra da Agricultura, e o Ministério do Meio Ambiente tem um papel de controle, de regulação. Um dos ministérios que deveriam ter suas atividades reguladas também pela agenda ambiental — e fiscal, tributária, etc. — é quem definiu de que forma seria fiscalizado. Isso em um país que tem o capital natural do Brasil, nosso patrimônio ambiental, que tem sido tratado como um problema que precisa ser tirado do caminho.

De que forma você entende que isso aconteceu?
O meio ambiente foi muito maltratado durante essa eleição. E a estrutura futura vai refletir essa visão: de que o ambiente é um problema e a área ambiental não pode impor restrições à ação das outras pastas. E isso corresponde muito à figura do Ricardo Salles.

Que figura é essa?
Ele foi uma pessoa que, na Secretaria do Meio Ambiente em São Paulo, teve uma gestão muito controversa, de pouco mais de um ano. Foi indicado pelo antigo partido do presidente eleito, o PP, e retirado da secretaria a pedido do partido porque nem mesmo eles estavam satisfeitos com sua gestão, assim como funcionários de várias instituições: do Instituto Geológico, do Instituo Biológico, do Instituto Florestal, que viam riscos para a agenda ambiental do Estado de São Paulo na gestão do Ricardo Salles. Surpreende o fato de que ele é réu na Justiça — ele não está apenas sendo investigado, ele hoje é réu, em denúncia do Ministério Público. Para um governo que diz que vai ser de combate à ilegalidade, só vai trazer pessoas honestas para trabalhar no governo, pessoas que não têm ficha suja, existe um flanco de vulnerabilidade muito grande.

Salles recebeu críticas de ambientalistas por sua ligação com ruralistas. O que você acha disso?
Acho que é um caso único: nunca antes na história deste país um ministro do Meio Ambiente foi objeto de lobby de representantes de setores que deveriam ser regulados e controlados por seu ministério. Há representantes dos ruralistas, associações de ruralistas que congregam inúmero atores, que assinaram carta de apoio ao Ricardo Salles, em uma demonstração de que eles querem ser regulados por alguém que talvez não imponha muitos controles a eles. Se ele é direita, de esquerda, isso não importa: a questão do clima é uma agenda estratégica de negócios. Aqui (na COP24) tem bilhões de negócio, talvez trilhões de negócios sendo discutidos no âmbito desta conferência, que é a transição para uma economia de baixo carbono, o investimento que flui para as energias renováveis, para as novas tecnologias.

A temática ambiental ainda é vista com maus olhos?
Essa é uma agenda econômica também. Que gera negócios. Muitos negócios. Gera retorno de investimento. Cada vez mais temos informações de que reduzir as emissões significa ganhar eficiência econômica. Essa é uma agenda que deveria interessar muito à Fazenda nacional. E nós teremos no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), inclusive, alguém que já foi ministro da Fazenda, o Joaquim Levy (que aceitou o convite para ser presidente do banco), que quando foi ministro tratava dessa agenda com bastante atenção, próximo do seu gabinete. Como ministro da Fazenda. Porque ele sabe que essa é uma agenda econômica. Uma agenda que poderia permitir ao Brasil transformar vantagens comparativas em vantagens competitivas. Então, de novo, se ele é esquerda ou de direita, pouco importa. A agenda ambiental não é de direta ou esquerda. Todo mundo bebe água. Todo mundo depende de um clima equilibrado. Todo mundo que vai na feira quer pagar um preço justo pelos alimentos, que dependem da chuva no momento certo, na quantidade certa. Se o clima está desequilibrado, o preço do feijão vai lá para cima. O que eu quero é que o meio ambiente ajude na minha qualidade de vida, na minha segurança alimentar, energética, hídrica. A posição ideológica dele pouco importa. Embora o que aparente é que ele tenha sido nomeado também por questões ideológicas.

Isso causa preocupação?
É muito ruim. A gente sempre teve, pelo menos desde a gestão do ex-presidente José Sarney, no Ministério do Meio Ambiente, ou antigas secretarias do Meio Ambiente, pessoas que eram comprometidas com a área. Que trabalharam pela área. Podemos julgar a qualidade, a performance, os impactos da gestão de um e de outro, mas todos eram — posso citar nomes, como José Goldemberg, José Lutzenberger, Gustavo Krauser, José Carlos Carvalho, Marina Silva, Carlos Minc, Izabella Teixeira, José Sarney Filho, Edson Duarte —, pessoas todas mais ou menos devotas à causa ambiental. Elas trabalharam pela proteção do meio ambiente. O Ricardo Salles não vem com esse histórico.

* O repórter viajou à Polônia para a COP24 como integrante do Climate Change Media Partnership 2018, uma colaboração entre a Earth Journalism Network e a Stanley Foundation.